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Olhamos e no olharUnimos nossas almasdesafiamos a lógicae gritamos aos deusesque se calassem diantede nossos beijos de amorEles loucos gritaramante a nossa heresiae de todos os lados os ventos dessa irasopraram nossas máscarase nos encheram de dorEsquecemos do olharnas palavras lutamosna personalidade do outronos perdemos do começodespencamos no finalfrio, feio e sem cor
Silvio estava numa crise de criatividade. Ele precisava escrever o seu próximo livro, mas não conseguia pensar em nada bom. Andava de metrô com seu filho Silvinho porque o menino queria ir no shopping.- Pai, onde é a curva do metrô?Silvio tinha problemas com as perguntas do filho. Silvinho tinha 6 anos e estava naquela época da vida em que as que as dúvidas seguem decobertas, e essas por sua vez seguem mais dúvidas, e não se tem medo de perguntar.- Como assim meu filho?- Curva do metrô pai! O metrô não vai e depois volta? - Sim Silvinho.- Então, ele não tem que fazer uma curva pra voltar?Silvio ainda estava digerindo seu problema na mente e resolveu que teria que eliminar de forma rápida a dúvida do filho para poder voltar a pensar. - O metrô anda pros dois lados filho. Ele não precisa fazer curva pra voltar. O condutor do metrô vai pra outra ponta do metrô e ele começa a andar pro outro lado.- Ah tá. – Respondeu Silvinho olhando pra janela do metrô emburrado.Silvio percebeu um ar de decepção do menino. Tentando entender o que na resposta dele tinha magoado o menino pergunta:- Que foi filhão? O pai falou alguma coisa de errado?- Não pai, é que a curva do metrô parecia ser um lugar tão legal.Um ano mais tarde Silvio lançou um livro infantil chamado “As Histórias da Curva do Metrô.”
Eles se encontram.Ela pensa. Ele está atrasado. Eu odeio quando ele se atrasa porque ele não tem motivos pra se atrasar. Quando será que ele vai tomar jeito?Ela pensa. Eu detesto essa calça e além disso o tênis dele está sujo. Poxa, será que custa limpar o tênis pra sair comigo? E essa calça, eu vou procurar um bom momento pra comentar da calça dele.Ele sorri. Ela sorri de volta.Ela pensa. Droga, será que deu pra reparar que eu não passei delineador hoje? Ah, ele é um insensível que não repara em nada, ele nem vai reparar que eu não passei o delineador.Ela pensa. Desgraçado! Olhou a bunda da menina que passou! E daí que eu não tenho uma bunda que nem a dela? Pelo menos teve a decência de disfarçar. Nem sei porque eu estou com ele!Ela pensa. Ele vestiu a camiseta que eu dei de presente pra ele. Pelo menos uma bola dentro ele tinha que dar. Ai meu, eu não acredito que ele tá com esse chapéu que eu odeio! Definitivamente ele não sabe se vestir. Definitivamente eu não sei porque eu ainda estou com ele.Ela pensa. Ainda por cima tem aquele recado que a menina deixou para ele na internet. Ele não percebe que ela está dando em cima dele? Acho que ele percebe e finge que não tem nada! Eles gostam dessas meninas que ficam paparicando eles.Ela pensa. Droga, quinze minutos atrasado. Acho que vamos perder o começo da peça. Eu odeio Nelson Rodrigues. Não queria ver essa peça. Mas ele insistiu tanto. Não sei mesmo porque estou com ele. O pior de além de insistir na peça que eu não queria ver ainda chega atrasado!Ela ainda pensa em mais um bocado de coisas no espaço de tempo entre avistá-lo e encontrá-lo.Ele pensa. Ela deve estar brava com o atraso, mas ela está linda.Ela não diz nada.Ele diz boa noite. Ele pensa. Eu amo essa menina.Então eles se abraçam e por um instante não pensam em nada.
Ana voavaNo céu semi-nuaBrincava de luaE escandalizavaCidade pequenaSem entenderQueria esconderA fada morenaMas Ana brincavaO céu o seu larSeu ser singularNinguém afetavaO padre pernetaFicou revoltadoDisse indignadoQue era o capetaO pai, por DeusPediu que descesseAntes que padecesseDa fúria dos seus.Ana fugiuNo meio da noiteEm chuva de açoiteFicando febrilViu a cidadeDe Carros e luzesLuas e cruzesNova novidadeDesceu e entãoVirou um frissonGanhando neonE televisãoDepois o jornalDepois a igrejaDepois a pelejaIntelectualVoltou para casaDessa vez a péVoltou à sua féFugindo da NASAEntão se casouE teve meninaChamada CelinaNunca mais voou.Mas hoje CelinaA lua olhouE leve voouSem medo da sina.
Era fim da tarde e ela tomou um banho demorado. Se arrumou como fazia todo dia e foi para a janela esperar. A notícia do último mensageiro tinha boas chances de estar correta.
Ela não estava sozinha nessa. Diversas mulheres aguardavam na porta de suas casas. Eles, os maridos, partiram em três grupos. O dela foi com os primeiros, pois era um dos mais fortes.
Os olhos cheios de esperança, esperaram. No horizonte os últimos raios de sol morriam quando ao longe se vê a nuvem de fumaça e o canto de vitória. O trote dos cavalos aos poucos vai aumentando. Os guerreiros, que na verdade são pastores, erguem orgulhosos os seus bastões.
Ela procura avistar seu querido no meio da nuvem de areia. Mas a bandeira que tremula é a do terceiro grupo. Ela tem ainda esperança. Ouve vindo das outras casas a alegria das outras mulheres. Elas pegam os bastões das mãos de seus maridos e honram com a dança a arma que os trouxe de volta vitoriosos. Ela se imagina dançando também. Ensaia alguns passos e dança sozinha em casa. Continua a dançar até ficar exausta, deita no chão e dorme. Ele não voltou hoje.
No dia seguinte repete o ritual. Os homens que chegaram no dia anterior disseram que talvez seu marido regresse com o segundo grupo que ficou desmontando as barracas. Mais uma vez ela se banha. Mais uma vez se arruma. Mais uma vez espera na janela. Já é noite alta mas ela não interrompe sua vigília. Quando seus olhos estão prestes a fechar ouve-se novamente a cantoria, mas dessa vez com menos ânimo. Acendem-se as tochas das casas e as mulheres, muitas das quais desarrumadas já, correm ao encontro da nuvem iluminada pelas tochas dos guerreiros. Na mão os bastões. Repetem-se os abraços e as danças. Felicidade no meio da noite. Mas ele não voltou dessa vez.
Ela passa agora um mês repetindo o mesmo ritual. Aguarda ansiosa todo dia na janela. Depois de algumas semanas, passa a dormir na porta da casa. Já não se arruma mais e nem se banha. A esperança vai se esvaindo até que numa manhã insone vê surgir ao longe novamente a nuvem, dessa vez sem cantoria. Poucos homens montados voltam carregando alguns bastões. Um deles desmonta, vai até a porta dela e deixa aos pés dela um bastão. O bastão do seu marido. Ele não voltará mais.
Ela pega o bastão, dança e finalmente dorme tranqüila.

Vou escrever numa pedra
Todos os meus grandes feitos
Vou escrever também os erros
E os nomes dos meus amores
Escreverei também todos meus desafetos
E o resultado das minhas lutas
Vou escrever o que eu penso de você
E o que eu penso de todo mundo
Vou escrever também o que eu penso do mundo
E como eu cheguei na pedra.
Depois, quero ser enterrado debaixo dela
Pois sempre me falaram para pôr uma pedra sobre tudo isso.
Até o dia que alguém a remover.
Senhoras e senhores, eu sou um canalha.
Digo hoje sem hesitar.
[No canto uma mesa. Nesta um maço de cigarros e ao lado do maço um isqueiro, uma garrafa de uísque e um copo]
Canalha como assim foram canalhas os que vieram antes de mim, e como serão os que depois virão. Cada um vil na sua estirpe de vilania.
Cada um cruel em seu próprio gosto pela crueldade.
Mas canalha.
[Acende um cigarro]
Não vil, como vilões que são perseguidos pelos heróis, mas herói canalha em sendo vil somente aos próprios olhos.
Não cruel como os que de humanos já tem pouco, mas cruel no sentido da crueldade que só pode ser alcançada nas sombras de ser humano falho na sua plenitude.
[Enche o copo, e silencioso, olhando a rota da fumaça, traga a bebida como se perdido no amargor]
Rio dos que choram e faço outros sofrer para meu riso.
Critico sem conhecer, e conheço fingindo não ter criticado.
Escravo do veneno da mentira, minto quase que pra mim mesmo e me satisfaço sabendo que me engano, e de preferência, a outros também.
Amo a todos sem amá-los e odeio a mim, antes de todos, sem assim deixar de ser amado.
E na farsa dos que jamais amaram, me perco de amores a quem quiser me dar atenção. Falso amor do mais real falsário.
Me engano às vezes pensando que agora sim, sou normal, completo. Mas a sombra da vilania...
[traga longamente o cigarro]
...a sombra da vilania está ali contínua e esguia como a fumaça...
[solta a fumaça]
...então se espalha maior e volta a ser a fétida nuvem da canalhice que já chamaram de alma.
Nessa, os amores desfeitos e as promessas quebradas mancham o canalha como canalha que ele é.
[toma mais um gole do copo]
Mas o mundo é grande para canalhas de alma suja, assim como sempre haverão vítimas.
E sempre haverão canalhas como eu.
Canalhas de corpo e alma.
Vítimas da própria canalhice.